Eu nunca pensei que eu nunca mais fosse te ver de novo. E também achei que eu iria primeiro, você mesmo me disse, I'll think you'll die first. Totally, eu dizia.
Faz mais de dois anos que nos conhecemos naquela festa queer clandestina na praia de Hove. Eu era uma estrangeira, sóbria e assustada, não conhecia ninguém a não ser algumas meninas que me convidaram para lá e que não haviam chegado ainda. Eu sentei no chão de cascalhos e esperei, foi quando você me apareceu. Tipo um anjo, e talvez você fosse um mesmo. Hey stranger, fancy some alcohol? Você estava muito louco, cara. E eu estava morrendo de medo. As gurias não chegavam nunca, e tudo o que eu menos queria no momento era um estranho virado de ácido puxando papo comigo. Mas eu não consegui ver maldade em você, porra. Aceitei o drinque, cidra gelada, e logo estava tagarelando contigo a respeito de como fui parar em Brighton, da minha vida no Brasil, a faculdade de filosofia, o gosto horrível da comida inglesa, da emoção de estar ali e eu nem sei se você lembraria de tudo isso, de tão louco, mas você elogiou o meu inglês, me contou da sua vida, da sua sobrinha recém-nascida, a vida no subúrbio londrino e a recém-chegada a Brighton, não para estudar - fucking bollocks! - mas para recomeçar uma vida nova, de acordo com o seus termos. E eu te admirei muito por isso, e conversamos durante horas até que as meninas chegaram e você as conhecia, o que me deixou muito aliviada. Mas não te vi mais nessa noite.
E quando me dei conta, você era o meu companheiro inseparável. Depois da noite na praia, te encontrei nos arredores do pier, onde eu trabalhava, sentado no seu skate e lendo um livro qualquer. Você disse que eu era uma das poucas coisas da qual se lembrava, o que me deixou de certo modo bastante lisonjeada. Quando me dei conta, estávamos andando de bicicleta, pedalando até o Devil's Dyke ou até Lewes, fazendo lanchões vegetarianos e colando nos mais variados sons. Quando me dei conta, estávamos viajando juntos de trem para Londres, pegando ônibus para outras cidades, arranjando trabalho e moradia juntos. Quando me dei conta, estávamos fumando um no telhado da velha senhoria dos mil gatos em Boscombe, Bournemouth. Quando me dei conta, estava muito louca com você nas mais diversas situações, estava conhecendo os lugares mais inesperados e mais interessantes da Inglaterra, coisa que nenhum turista gostaria de ver. Quando me dei conta, eu já não conseguia ficar longe de você.
Você me apresentava garotas fantásticas, bandas maravilhosas (have you ever felt multiple musicgasms, Carol?), dicas de inglês e eu te ensinei a falar português quase perfeitamente, ensinava tudo o que eu sabia sobre música (i knew those musicgasms), literatura e (contra)cultura em geral. Você me acobertava na minha situação de ilegalidade, e eu te ensinava a lidar com a fome e com todos os perrengues que passávamos pela falta de grana. Eu lembro daquela vez em Nottingham quando estávamos na casa daquele seu namorico e que saímos todos muito altos e a polícia nos cercou e conseguimos dispersá-los por pouco. Foi talvez o maior cagaço que eu passei na vida. Lembro ainda daquela nossa primeira - e única - briga (por causa de algumas libras) em Londres, quando nos separamos pela primeira vez em dois meses. Você foi para a casa daquele seu amigo em Mile End e eu fiquei no albergue em Victoria, room 43, com mais cinco meninas desconhecidas. Impossível comunicação. Só eu e mais duas falavam inglês e eu passei meus dois dias mais difíceis naquele país cinza, não tinha ninguém com quem conversar. E se tinha, a conversa não valia a pena. Minhas amigas estavam todas em Brighton e as pessoas estrangeiras que conheci, amig@s do lugar onde eu estudava, a maioria continuava em Hove ou já haviam voltado para seus respectivos países, já que o verão já estava se preparando para sumir de vez. E eu lembro então, que eu estava sentada naquele pub na esquina da Belgrave Road, pertinho do hostel, e você surgiu do nada dizendo Vá si fódêrr! Marquis of Westminster??? Você chegou, com uma laranja na mão pedindo ajuda para descascá-la: I'm fucking wandering all around this devilish devil-fuckingbabylon-city to get some help with this shit e eu não pude conter o riso, era impossível. Primeiro pelo nome do lugar, de fato, Marquis of Westminster não era lá grandes coisa, e depois, eu não acreditava que eu ia me render por causa de uma mísera laranja. Mas eu estava lá, chainsmoking e enchendo a fuça de Strongbow, e você logo sentou, me pediu desculpas e eu pedi desculpas, e descasquei a porcaria da laranja, e você degustou-a como se fosse a melhor laranja do mundo, e nós nos abraçamos e você chorou, eu chorei. London, você disse, makes us all feel like shit. Pegamos nossas coisas e compramos bilhete pro primeiro trem para Brighton. Chegamos a tempo de pegar um rango no nosso lugar preferido, o Planet Janet, onde gastamos quase todo o nosso dinheiro e eu te obriguei a comer açaí e você odiou, mas comeu mesmo assim porque era caro. Era aquele açaí que estava ruim, você tinha que ter vindo pra cá experimentar o que é bom pra tosse. E aí seguimos para o West Pier, onde você me apresentou a sua irmã e a pequena filhinha dela, e passamos o resto do dia na praia onde eu te conheci e onde eu tirei a minha foto favorita e onde ficamos até anoitecer, depois que elas foram embora, conversando sobre a vida, a morte, suicídio, insatisfação, o (e a falta de) sentido das coisas e a imprevisibilidade de tudo: Nem eu nem você poderíamos imaginar tamanho companheirismo e afinidade assim, do nada. E eu não consigo deixar de me sentir um pouco mais completa quando lembro de tudo o que passamos juntos.
Mas uma hora ou outra eu ia ter que voltar para o Brasil, e claro que você não tinha condições de vir comigo. Mas eu te esperei, você prometeu me visitar e sempre te chamava nas nossas trocas de e-mails e conferências de vídeo, até que minha caixa de entrada nunca mais recebeu notícia, meu skype ficou deserto e no meu msn, puf, nada também. Talvez eu mesma tenha negligenciado nossa comunicação, mas eu jamais deixei de pensar em você, amigo.
Não te vejo faz mais de dois anos já. E faz quase um ano que essa ausência, que já era tão difícil, se tornou permanente. Sobre o telefonema da tua irmã, os e-mails das meninas, o choque da notícia, e a raiva que eu sinto de você por ter feito isso com você mesmo, sem ao menos voltar a falar comigo.. sobre tudo isso eu não quero comentar porque na minha memória eu só quero levar tudo o de incrível e até de difícil que passamos juntos. Tudo de bonito que você me disse, cada abraço, casa risada, eu não pretendo esquecer nunca porque você é um cara fantástico, e tenho certeza de que se céu ou inferno existissem, você estaria lá em cima, bem ao lado de Deus, se Deus existisse. E ainda, botaria uma vela gigante para elx e leves e altxs ririam de tudo e conversariam sobre tudo, porque ainda há de existir uma criatura tão boa de conversa quanto você, velho. Sempre que sonho contigo a imagem do teu rosto é a mesma, assim, feliz, tagarela e sorridente.
Ontem eu vi algumas estrelas e imaginei que fosse obra tua, algo a ver com o seu aniversário. E eu cantarolava qualquer coisa inventada na hora.. happy 23, you were not dead in my dreams..

...
when our dreams killed you, feliz aniversário neste dia cheio de saudade, meu grande amigo.
Com amor - onde quer que esteja.. se estiver,
Carol